A infectologista cuiabana Danyenne Assis, afirmou que Mato Grosso carrega um título preocupante e silencioso: é um dos estados mais hiperendêmicos para hanseníase do Brasil.
Os casos ocorrendo em criança é sinal de uma endemia oculta. De doença não diagnosticada em muitos adultos
Embora os boletins epidemiológicos mostrem números consistentemente altos entre a população adulta, há um dado que acende um sinal vermelho ainda mais intenso nos corredores da saúde pública: a taxa de detecção da doença em crianças.
NOTÍCIAS QUENTES – Acesse o grupo do Isso É Notícia no WhatsApp e tenha notícias em tempo real (CLIQUE AQUI)
Segundo a médica, que há 15 anos percorre os corredores do Hospital Universitário Júlio Müller, na capital mato-grossense, lidando diariamente com o peso do diagnóstico tardio, quando uma criança tem hanseníase, é porque há uma “endemia oculta” que se alastra silenciosamente dentro dos lares.
“Para você ter ideia, o período de incubação média, que é de você contrair a doença até manifestar os sintomas, é em média de 3 a 5 anos. Então, teoricamente, criança não deveria nem ter. Os casos ocorrendo em criança é sinal de uma endemia oculta. De doença não diagnosticada em muitos adultos, muitos pacientes”, disse ela em entrevista ao MidiaNews.
Assis alerta que, muitas vezes, a doença não começa com uma marca visível na pele, mas com uma dor insistente nos pés ou nas mãos que pais e pediatras, desatentos ou despreparados, insistem em não investigar.
Ainda na entrevista, a especialista dá orientações práticas, desmistifica os tabus que ainda cercam a hanseníase e faz um apelo direto não só às famílias, mas também aos gestores públicos. Ela detalha por que Mato Grosso permite que pacientes cheguem aos consultórios já com deformidades visíveis e irreversíveis. “Quando a sequela já está instalada, não melhora, não tem uma volta a funcionalidade normal. Em grau 2 é mais difícil, mas o grau 1 é possível”.
Confira os principais trechos da entrevista:
MidiaNews – O que é exatamente a hanseníase? Ainda é aquela doença de lepra que as pessoas têm medo?
Danyenne Assis – A hanseníase não é exatamente a lepra da Bíblia. O termo lepra foi usado erroneamente durante muito tempo, para identificar pacientes com hanseníase. É uma doença que acomete principalmente os nervos periféricos e a pele e que tem a ver com aquela doença do passado que, em termos bíblicos, englobava muita coisa.
MidiaNews – Como uma criança pode pegar a hanseníase? A transmissão é igual dos adultos? E como que funciona essa transmissão?
Danyenne Assis – A transmissão é igualzinha dos adultos. Ocorre por via respiratória. Pelo contato com gotículas de secreção respiratória, de fala. E essa transmissão precisa ter um contato muito prolongado para acontecer. Então, o paciente precisa estar exposto a alguém que não iniciou o tratamento. A pessoa que vai se infectar tem que estar exposta a esse paciente que não sabe que tem a doença e por várias horas seguidas durante a semana. Não é um contato ocasional com alguém, que vai fazer a pessoa ter hanseníase. Seria como morar no mesmo ambiente, por exemplo, que você fica várias horas junto, dentro do mesmo ambiente e perto da pessoa.
MidiaNews – Por que a hanseníase em crianças é considerada um termômetro para a saúde pública? O que ela revela sobre uma cidade ou um estado?
Danyenne Assis – A hanseníase em criança é um alerta de que existem casos não diagnosticados nessa população. Por quê? Porque a hanseníase é uma doença de progressão muito lenta. Então, ao se fazer diagnóstico em criança, quer dizer que o grau de transmissão ali naquele município, naquela localização, está muito alto.
Para você ter ideia, o período de incubação média, que é de você contrair a doença até manifestar os sintomas, é em média de 3 a 5 anos. Então, teoricamente, criança dessa idade não deveria nem ter. Os casos ocorrendo em criança é sinal de uma endemia oculta. De doença não diagnosticada em muitos adultos, muitos pacientes.
MidiaNews- Em Cuiabá e em Mato Grosso, qual tem sido a faixa etária mais comum entre os diagnosticados com hanseníase?
Danyenne Assis– Geralmente, a faixa etária é adulto mesmo, pacientes adultos, criança nem tanto, mas existe essa taxa de detecção importante, não é igual no adulto, é menor, mas que é uma alerta para o nosso estado bem maior do que o que ocorre em outros estados do Brasil.
Somos um estado hiperendêmico. Podemos falar numa epidemia e as nossas taxas de detecção de hanseníase em todas as faixas etárias são as maiores do Brasil.
MidiaNews – E na sua opinião, está ocorrendo mesmo uma epidemia de hanseníase em crianças aqui no Mato Grosso?
Danyenne Assis – Somos um estado hiperendêmico. A endemia é quando tem uma epidemia dentro de uma região, então, sim, podemos falar numa epidemia e as nossas taxas de detecção de hanseníase em todas as faixas etárias são as maiores do Brasil.
MidiaNews – A hanseníase infantil ainda é tratada como tabu ou negligenciada politicamente em Mato Grosso?
Danyenne Assis – Com certeza. A hanseníase como um todo é uma doença negligenciada. É uma doença que carrega todo esse estigma do passado, da lepra, de que as pessoas ficavam deformadas, de que as pessoas tinham que ser isoladas. E isso aconteceu num passado não muito distante, tem uma carga social, cultural grande em relação a hanseníase, então é uma doença ainda estigmatizada.
MidiaNews- Por que ainda vemos crianças com grau 2 de incapacidade no momento do diagnóstico, se a doença tem cura e tratamento gratuito?
Danyenne Assis – Porque a doença é difícil de ser diagnosticada. Hoje em dia, a gente tem um hall de exames para várias doenças, para se fazer diagnóstico. E a hanseníase, não tem isso. A hanseníase é uma doença que precisa examinar mesmo o paciente. Pegar, olhar, estar atento aos sinais. Então, é uma doença mais difícil de ser diagnosticada. Ela não vai dar sintoma até que essa deformidade aconteça. Em muitos casos pode acontecer de não dar sintoma até esse paciente ter um comprometimento neural importante. E isso contribui para essas incapacidades físicas.
Dividimos o grau de incapacidade física na hanseníase em grau 0, grau 1 e grau 2. O grau 0 é aquele paciente que não tem nenhuma incapacidade física. É nesse momento que a gente deveria fazer o diagnóstico, mas mais de 80% dos casos aqui em Cuiabá, o paciente já tem pelo menos grau 1 de incapacidade física, que é quando o paciente já tem alguma alteração decorrente da doença, como uma perda, uma alteração de sensibilidade mais importante.
No grau 2, o paciente já tem alguma deformidade visível, alguma úlcera, alguma alteração na pele ou na musculatura do paciente. É importante falar, porque o paciente chega achando que hanseníase tem que ter perda de sensibilidade.
MidiaNews – Quanto tempo demora para a doença escalar de grau zero a grau um ou dois?
Danyenne Assis – Tem uma regra exata, igual a gente tem, por exemplo, na hepatite para virar cirrose. A hanseníase é uma evolução bem lenta, menos de cinco anos a gente não espera uma incapacidade física ainda.
O paciente que tem dor crônica, principalmente em parte distal, dor nas mãos, nos pés, problemas oculares, ressecamento… Isso é um alerta para a hanseníase e outros sinais de dor neuropática
MidiaNews – Quando o paciente atinge o grau 1 ou grau 2 e perde os movimentos, é irreversível?
Danyenne Assis – O grau 1 de incapacidade ainda é reversível, consegue reverter. O grau 2 já é mais difícil. Exige uma recomposição ali do tecido neural e, geralmente, quando a sequela já está instalada, não melhora, não tem uma volta a funcionalidade normal. Então o grau 2 é mais difícil, mas o grau 1 é possível sim.
MidiaNews – Que tipo de sequela neurológica irreversível mais teme em ver uma criança diagnosticada tardiamente?
Danyenne Assis – São as deformidades musculares, mão em garra, pé caído ou aquelas úlceras de difícil cicatrização, que pode servir de porta de entrada para outras infecções e que pode comprometer até a vida da criança.
MidiaNews – Quais são os principais sinais neurológicos precoces que os médicos negligenciam? Quais são os primeiros sintomas que aparecem?
Danyenne Assis – Especialmente a dor. Tem paciente que tem dores que não tem um motivo, não tem uma explicação. Esse paciente que tem uma dor crônica, principalmente em parte distal, que tem dor nas mãos, nos pés, problemas oculares, ressecamento… Isso é um alerta para a hanseníase e outros sinais de dor neuropática, porque a hanseníase, sendo uma doença neural, vai causar sintomas de nervos.
MidiaNews – Como explicar a família que uma criança pode ter hanseníase sem manchas visíveis? Ainda existe muito esse tabu?
Danyenne Assis – Acho que até esse é um dos motivos para não se fazer diagnóstico precoce. Porque as campanhas no passado focaram muito em manchas. As pessoas ficaram com essa percepção de que hanseníase tem que ter uma mancha. Não tem. Então, criança, principalmente, vai se queixar muito de dor. A criança tem uma predominância dos sintomas neurais, até porque o acometimento primário da hanseníase é em nervo periférico. Se a criança começar a reclamar dor no pezinho, na mãozinha, alteração ali para andar por dor, tem que ser suspeitado de hanseníase.
MidiaNews – Qual a principal dificuldade dos profissionais do SUS para diagnosticar hanseníase precoce em crianças?
Danyenne Assis – Acho que é a capacitação mesmo. A criança, a partir de uma determinada idade, já consegue ser submetida a uma avaliação dermatoneurológica, neurológica simplificada, que é o formulário que a gente tem padrão para fazer o exame da hanseníase. Muitos profissionais não sabem usar o estesiômetro, que é os filamentos para testar o grau de sensibilidade em cada local ali. O principal desafio mesmo é a capacitação. Não é necessário exatamente ter um estesiômetro para fazer esse diagnóstico, mas precisa de muita paciência.
MidiaNews – No SUS, temos este tratamento à disposição?
Danyenne Assis – Sim. Para todos na unidade básica de saúde. Esse tratamento é acompanhado, é supervisionado. Existem doses que o paciente toma mensalmente lá no posto de saúde.
MidiaNews – A hanseníase em menores de 15 anos costuma ser frequentemente confundida com quais outras doenças dermatológicas ou neurológicas?
Danyenne Assis – Existe uma gama de diagnósticos diferenciais. Existem as neuropatias diabéticas. Pessoas que têm diabetes podem ter alteração nos nervos periféricos. Existem as pitiríases, psoríases, fibromialgia, lúpus, uma série de outras doenças inflamatórias, infecciosas ou mesmo fungo parasitário que pode também mimetizar a hanseníase.
MidiaNews – Quais são os tratamentos disponíveis hoje contra hanseníase?
O tratamento principal é feito pela Unidade Básica de Saúde. Tem a cartela da medicação disponível fornecida pela Organização Mundial de Saúde
Danyenne Assis – O tratamento principal é feito pela Unidade Básica de Saúde. Tem a cartela da medicação disponível fornecida pela Organização Mundial de Saúde, que tem duas apresentações, uma de adulto e uma infantil. Aí, a criança, né, com menos de 50 quilos, vai usar a formulação infantil. E existem também os antibióticos alternativos ou substitutivos para caso essa criança tenha alguma contraindicação ao uso da cartela convencional.
Mas é um tratamento bem simples, é prolongado, mas não é um tratamento complicado, é tomar a medicação diariamente, geralmente uma vez ao dia. Mas é prolongado, a criança vai ter que fazer o tratamento de seis meses a um ano. Então nisso pode acontecer as desistências, os efeitos colaterais, alteração da flora intestinal, mas isso é contornável.
MidiaNews – Se a senhora pudesse implementar uma política pública imediata focada na doença, qual seria o primeiro passo?
Danyenne Assis – O primeiro passo seria alertar que a hanseníase é uma doença primariamente neural. Não esperar que o paciente tenha só mancha de pele para começar a tratar. E segundo passo, capacitações. Os profissionais precisam ser treinados para fazer um diagnóstico adequado de hanseníase.





















