O grande temor do final do século 20 era a guerra fria. Quando a explosão demográfica assombrava porque não teríamos comida para alimentar todos, nessa rocha flutuante, chamada Terra.
Um período de intensa hostilidade entre duas potências mundiais – Estados Unidos e Rússia -, que começou em 1947 e foi até 1989. E mesmo não contando com um conflito armado direto entre as duas potências – ou seja, sem corpos deixados para trás nos campos de batalha -, não significou, nem de longe, que não houve combates indiretos da mais alta periculosidade, para estes frágeis seres humanos.
Período que abnegados cientistas e servidores públicos vocacionados, ao redor do mundo, se debruçaram na causa e com alta tecnologia e persistência, destituiram o temor e a comida não foi mais um problema na virada do século.
Assim, ao final, o muro de Berlim caiu, o cogumelo que iria dizimar a raça humana, na terra, voltou a ficar sob no controle.
E como tudo, a guerra fria abriu olhares. E eles chegaram diversos, plurais, iniqualáveis. Principalmente, na música.
No Brasil, foi um tempo que a trilha sonora já migrava para o ‘sertanejo’, que ia os poucos deixando de ser brega, coisa de caipira, chegando em uma nova roupagem como ‘sertanejo universitário e foi tocar em festa da zona sul carioca, antes um reduto impenetrável da bossa nova. Provando que música é espaço que cabe todo mundo. Sem estigma e sem policiamento.
Os Titãs do Iê-iê-iê, com bastante vigor, já previa, o que vinha. ‘Já não caibo mais nas roupas que cabia […] será que falei o que ninguém ouvia […] será que escutei o que ninguém dizia? Não vou mais me adaptar’.
Como uma geração em transição, estávamos num limbo. Em Go Back: ‘só queríamos saber do que podia dar certo’. Pois ‘não tínhamos, como não temos, tempo a perder’.
Após mais de 30 anos, resolvido a questão de produção de alimentos, e com a arte e a música gritando poesia em forma de desabafos, ainda assim não conseguimos fazer o mais fácil, o mais simples: distribuir. O que lá atrás prometeu nos matar a todos se não mudássemos, se não nos tornássemos melhor. Dividir e erradicar a fome no mundo.
Talvez porque não eram só aqueles líderes loucos que tinham a cabeça de dinossauro, mas é porque parece-me – que antes, como hoje -, precisa-se ser dinossauro para se tornar um líder.
Mas eu não desisto, ainda acredito na paridade de armas, ou seja, na igualdade de tratamento e no princípio da razoabilidade, fora do olhar envelhecido jurídico, mas dentro daquele conceito que o princípio também contém, que é o da da sensatez e do bom senso.
Assim, persisto, acredito, que devem ser extintos este velhos líderes dinossauros, mas não por um meteoro, mas pelo voto.
Pois a ‘gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte, a gente quer saída para qualquer parte’. Sobretudo, a gente não quer só comida, a gente quer, igualmente, educação, saúde e segurança.
E você, que acredita neste sistema podre por cima e carcomido por baixo: Você tem fome de que?
Rodrigo Rodrigues é jornalista e empresário.
Fonte: RODRIGO RODRIGUES























