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GRIFE

Hailey Bieber usa babydoll da Miu Miu e reacende debate sobre peça

Miu Miu veste Hailey Bieber de babydoll: peça que atravessa guerras, punk, riot grrrl e Olivia Rodrigo — e não é novidade na grife
FOTO : Miu Miu/Divulgação

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Hailey Bieber estreou como rosto da Miu Miu na campanha de outono/inverno 2026, em um cenário industrial noturno banhado de azul. Entre os looks, um vestido babydoll off-white, com decote quadrado, alças largas, laço no busto e cintura império, resume o que a grife tem repetido, temporada após temporada: o babydoll nunca foi só uma peça fofa.

Uma peça que nasceu ambígua

O babydoll nasceu em 1942, criado pela estilista americana Sylvia Pedlar, à frente da marca Iris Lingerie, como resposta direta ao racionamento de tecido durante a Segunda Guerra Mundial. Pedlar resolveu o problema encurtando a camisola tradicional, que ia até os tornozelos, para a altura do joelho ou um pouco acima, reduzindo o consumo de tecido em cerca de 20% a 30% por peça.

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O nome “babydoll” não veio de Sylvia Pedlar e só surgiu em 1956, com o lançamento de Baby Doll, filme de Elia Kazan com roteiro de Tennessee Williams. Na produção, Carroll Baker interpreta uma jovem noiva de 19 anos, apelidada de “Baby Doll”, que dorme usando esse tipo de camisola curta. Após o sucesso do longa — que foi um escândalo à época —, o nome passou a designar a peça.

Cristóbal Balenciaga apresentou suas versões do babydoll em 1957 e 1958, com camadas de renda e cintura solta, e esse foi o primeiro grande salto da peça do quarto para a rua. Nos anos 1960, a peça foi adotada por ícones como Twiggy e Brigitte Bardot: curta, solta e com ares de roupa infantil. Essa fricção entre “inocência” e sexualidade é o que fez dela um símbolo de ruptura desde o início.

O babydoll como arma: kinderwhore e riot grrrl

Nos anos 1990, o babydoll virou um manifesto. Courtney Love (Hole) e Kat Bjelland (Babes in Toyland) construíram um visual à base de vestidos babydoll, gola Peter Pan, meia-calça rasgada e batom borrado. O jornalista Everett True batizou o estilo de “kinderwhore“ em 1993, unindo a palavra alemã para “criança” à inglesa para “prostituta”. Em entrevista à Rolling Stone, Love foi direta: a proposta nunca foi parecer sedutora, e sim irônica — uma paródia da infantilização feminina.

O visual nasceu na mesma cena punk-feminista da riot grrrl: movimento de bandas como Bikini Kill e Bratmobile, que usavam músicas e fanzines para protestar contra o machismo e o abuso.

Dois desfiles, um só argumento: os aventais e as camisolas da Miu Miu

A campanha de Hailey Bieber conclui um raciocínio que Miuccia Prada vem construindo há duas temporadas. No desfile de primavera/verão 2026, a Miu Miu apostou no vestido-avental, símbolo do trabalho doméstico feminino que foi subvertido pela estilista ao cravejar a peça de tachas prateadas em couro preto.

Já no coleção de outono/inverno 2026, a grife apostou no oposto do avental: em vez do símbolo do trabalho doméstico, veio a peça mais próxima da pele. A coleção, batizada de Mindful Intimacy, trouxe vestidos curtos com laços em popeline, caxemira lavada e tule bordado. Lidos em sequência, os dois desfiles desenham uma única linha: o avental fala do trabalho invisível da mulher em casa; o babydoll fala da intimidade e do quarto. São as duas metades do espaço doméstico historicamente reservado às mulheres.

Não é a primeira vez que Miuccia Prada recorre à camisola como argumento: no desfile de primavera/verão 2016 da Miu Miu, a peça já havia aparecido em versões transparentes e deliberadamente “baratas”, vestida sob camisas abotoadas até o pescoço, em uma coleção que a própria estilista descreveu, nos bastidores, como um comentário sobre a cultura underground e o protesto.

Quem veste atualmente

Olivia Rodrigo é uma das celebridades que reacende o debate sobre a peça, pois tem sido explícita sobre a referência às bandas punk da riot grrrl, com seus vestidos babydoll. O clipe de Drop Dead, em que ela roda pelo Palácio de Versalhes usando uma túnica rendada da Chloé pré-outono 2026, e um look da grife emergente Génération78, usado em um show em Barcelona, geraram uma onda de críticas por “sexualização”. A reação ecoa exatamente o mesmo pânico moral que perseguiu Courtney Love trinta anos antes.

A safra de babydolls contaminou o guarda-roupa de outras cantoras: Sabrina Carpenter, Addison Rae, Melanie Martinez, Kacey Musgraves e Halsey também apostaram no comprimento curto e nos decotes altos típicos da silhueta.

A volta ao ponto de partida

O babydoll é uma peça que atravessou a camisola dos anos 1940, o protesto irônico do riot grrrl, o pânico moral em cima de Olivia Rodrigo e o argumento conceitual de Miuccia Prada sobre intimidade e corpo, sempre voltando ao mesmo lugar de tensão entre o que parece inocente e o que, na verdade, nunca foi.

 

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