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BOLSONARO E A COVID

Médica: “Fico perplexa ao ver o presidente ser único líder a negar o vírus”

Natasha Slhessarenko fala sobre pandemia, defende retorno às aulas e cita sonho de entrar na política

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Negacionismo, anti-vacina e fake news são as três palavras que a médica Natasha Slhessarenko culpa pelo momento pelo qual o País passa com a pandemia da Covid-19. Para ela, o atual cenário não ocorreria se os principais líderes políticos do País tivessem uma “convergência de discurso”.

Em entrevista ao MidiaNews, ela afirmou ficar “perplexa” com as posições do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) na pandemia.

“Os políticos precisam dar o exemplo. E o que vemos aqui, infelizmente, é o presidente não usando máscara, dizendo que a Covid é apenas uma gripezinha, deixando de comprar vacina. Como médica e cidadã, fico mais do que perplexa de ver uma pessoa eleita para bem representá-los sendo o único líder que nega a doença”, afirmou.

Ainda na entrevista, Natasha defendeu o retorno às aulas e disse que as crianças não podem ser consideradas as vilãs da pandemia, já que, segundo ela, estudos mostram que os menores não são os grandes transmissores da Covid. 

Aos 53 anos, a médica e empresária disse, ainda, querer alçar novos vôos, inspirada na vida política da mãe, a ex-senadora Serys Slhessarenko.

Estamos novamente com mais de 90% das UTIs ocupadas em Mato Grosso. A senhora teme que a terceira onda da pandemia seja pior que a segunda?

 Natasha Slhessarenko – Espero que não seja pior. Já vacinamos as pessoas com maior risco da doença, como os idosos, com comorbidade e profissionais da Saúde – que estão mais expostos – e por isso acredito que a terceira onda não será tão cruel. 

Vimos uma segunda onda dramática, muito grave. E foi assim por alguns fatores, como as aglomeração promovidas pela campanha eleitoral, festas de final de ano, carnaval, uma nova variante, pouca vacina e a população cansada de ficar em casa. Tudo isso resultou em um quadro extremamente dramático com ocupação de leitos de UTIs acima de 98%. Estou preocupada, mas espero que essa terceira onda, com toda a minha fé, não venha com a força que veio na segunda por conta da vacina.

E espero que a população que não tiver necessidade de se expor, fique em casa. E para as pessoas que precisam sair de casa, que não saiam para uma balada. Nós não estamos no nível de vacinação dos Estados Unidos e França, que voltaram a fazer eventos com muita gente. E pra chegar ao nível deles, acredito que ainda vai demorar. A velocidade da vacinação no Brasil está muito lenta.

E com essa velocidade lenta da vacinação mais as aglomerações registradas, quando acha que conseguiremos controlar a pandemia no Brasil?

Natasha Slhessarenko – Tenho muita esperança e certeza que vamos conseguir sair e vencer o nosso inimigo. Mas para isso teremos que fazer algumas lições de casa. A primeira é ter harmonia no que falar, parar com o discurso negacionista, anti-vacina, parar com fake news. Precisamos harmônicos em todas as instâncias, é preciso todos falarmos a mesma língua e combater o real inimigo. 

Tem médicos que defendem o tratamento precoce, outro falando contra. Cada um deve fazer o que deve, cada um com sua consciência, com a sua ética e postura. Agora, não podemos misturar ideologia com termos médicos. Se você acredita em tratamento precoce, faça. Mas deixe claro ao paciente que isso é empírico, que não há comprovação científica. 

Sairemos dessa pandemia, mas a velocidade com que a gente vai vencer depende da nossa postura. A postura dos nossos governantes, da conscientização da população quanto as medidas de biossegurança, a não se aglomerar, não ir para festas, não ir para botecos.

A senhora citou a convergência de discursos, o quanto esse discurso negacionista vindo da política influencia no comportamento da população?

Natasha Slhessarenko – Uma pesquisa da Datafolha aponta que apenas 0,5% da população confia nos políticos. Isso é muito dramático e ruim. Os políticos são eleitos para representar a população e trazer benefícios para esse cidadão. Os políticos precisam dar o exemplo. E o que vemos aqui, infelizmente, é o presidente não usando máscara, dizendo que a Covid é apenas uma gripezinha, deixando de comprar vacina. Como médica e cidadã, fico mais do que perplexa de ver uma pessoa eleita para bem representá-los sendo o único líder que nega a doença.

Vejo Bolsonaro passeando, promovendo aglomerações. O País não precisa disso. O País precisa de um líder que dê instruções corretas para sua população. Veja o exemplo dos Estados Unidos, comandado pelo Donald Trump e agora pelo Joe Biden. Em poucos meses se vê a diferença. Nesse contexto, onde a gente vê um descrédito da população para os interesses da nação, vendo que apenas 0,5% da população acredita nos políticos… Colocarei o meu nome à disposição da população no ano que vem. Os que acharem que mereço, vão me eleger.  

O Brasil já registrou casos da cepa indiana. Que risco essa cepa representa ao Brasil, um País já muito castigado pela Covid?

Natasha Slhessarenko – É uma cepa que já foi identificada no Brasil e temos as condições propícias para ela se disseminar. A aglomeração, sem o uso de mecanismo de proteção, é propício para o desenvolvimento de mais cepas variantes. As novas variantes nada mais são do que mecanismo de defesa do vírus, que quer continuar sobrevivendo. E para isso ele tem que sofrer essas mutações. Agora, o vírus está ganhando da gente no Brasil. E está ganhando porque a gente não está fazendo o que deve ser feito. 

É preciso ter um acompanhando diário do paciente com Covid-19. Isso é mais importante do que dar cloroquina ou não. Vamos parar de fazer negacionismo com as vacinas, vamos tomar vacina. Nós temos um Programa Nacional de Imunização que poderíamos usá-lo para ser referência para o mundo. Mas a gente não tem vacina, não tem matéria prima. 

A Copa América virá ao Brasil e a Cuiabá. Uma das críticas feita por especialistas é de que com a vinda de estrangeiros pode resultar em desenvolvimento de novas cepas e agravar os casos de Covid-19. Acredita nisso?

Natasha Slhessarenko – Eu pessoalmente acho de um risco muito grande, de uma irresponsabilidade muito grande, porque a gente não tem condições. Temos infraestrutura faraônica no campo do futebol, mas não temos um Hospital Estadual. Isso me deixa chocada e perplexa. Eu acho temerário, de grande risco, porque obviamente, vindo pessoas diferentes para cá, a chance de trazer novas variantes é grande. Basta ter gente para surgir novas variantes.

A sugestão do presidente Bolsonaro para que o Brasil sediasse o campeonato revela um política genocida?

Natasha Slhessarenko – A partir do momento que se aceita fazer um campeonato com o ritmo de vacinas como está o Brasil, fico preocupada. Fico tentando entender qual a postura de um líder de Estado fazendo isso. É extremamente perigoso ter a Copa América aqui, e pode ser um grande fiasco. Porque está todo mundo com medo do Brasil, porque o País está sendo uma fonte de novas variantes.

Volto a dizer: deveríamos ter harmonia no discurso. Presidente, governadores, prefeitos e sociedade civil deveriam estar empenhados em fazer e montar estratégias de como combater esse inimigo invisível, e não ficar se digladiando. Esses temas de tratamento precoce, vacinas, não deveriam faria passar pela esfera política. Isso não é política, é médico. Agora, o negócio tomou essa proporção, porque o país esta completamente dividido. Ou você é Bolsonaro ou você é de esquerda.

Agora falando um pouco sobre sua especialidade, a pediatria. Como as crianças estão reagindo a doença? Elas são de fato espalhadores da doença?

Natasha Slhessarenko – Desde o início, esse vírus tem mostrado não gostar muito de crianças e adolescente até os 19 anos e por isso elas têm sido poupadas. Nós temos dois grandes riscos. O primeiro são as crianças menores de um ano e as crianças com mais de 10 são as mais acometidas. Mas em um contexto geral, o óbito em crianças e adolescentes está em 0,6% no Brasil, o que é baixo.

As mortes ocorrem em especial em adolescente obesos, ou com alguma doença de base como diabéticos, cardiopatas ou pacientes que tenham câncer. Nas crianças menores de um ano, em especial as que possuem Síndrome Inflamatória Sistêmica Pediátrica. Mas de uma maneira geral, a cepa original e as novas variantes não se mostraram mais agressivas às crianças.

As crianças podem transmitir? Podem. Podem pegar? Podem. Mas, o número de assintomáticos em crianças é muito grande. Em adultos, 80% dos casos são leves, moderados ou assintomáticos. Já em crianças e adolescente esse número é bem maior, mas ainda não temos dados muito precisos. É preciso deixar claro que as crianças não são as vilãs dessa pandemia, não são as grandes transmissoras.

E quanto a volta às aulas, é favorável ao retorno? Escolas são um ambiente seguro?

Natasha Slhessarenko – Teve um momento da pandemia em que pensamos que as crianças eram grandes espalhadoras do vírus, mas isso não é verdade. Vários artigos científicos já mostraram que as escolas não são o lugar de grandes disseminações.

Sobre o retorno às aulas, com todas as precauções e cuidados a escola é ambiente seguro. É preciso ter sabonete, água, dispenser com álcool gel, espaçar mais a carteira. É inadmissível a Educação ser tratada da forma como está sendo tratada no Brasil. O Brasil é o país que mais ficou com escola fechada no mundo. Por quê? No Brasil há escolas que faltam água. Como levar um aluno à escola onde não tem água para lavar a mão?

 A pandemia revelou uma falha de na estrutura da Educação já existente no País?

Natasha Slhessarenko – A Saúde e a Educação nunca foram prioridade no Brasil. A gente poderia ser um país de dar inveja. Você já imaginou essa pandemia sem o Sistema Único de Saúde (SUS)? O SUS é excepcional, o PNI é excepcional. Nós temos programa de tratamento de hanseníase, tuberculose, HIV, hepatite B e C, todos públicos e que funcionam excepcionalmente muito bem. 

 Mas a nossa Saúde esta em um estado de penúria. Por exemplo, veja o prédio do Tribunal de Contas, do Tribunal de Justiça, Ministério Público, são tão bonitos, geralmente todos de granito, com muito vidro, lindos… Olha para o Hospital Universitário Júlio Müller, as condições do hospital. Na minha tese de doutorado, visitei creches municipais de Cuiabá, algumas com uma infraestrutura maravilhosa, fantástica e outras que não tinham banheiro. É precisa existir pelo menos uma homogeneidade pelo menos dentro do próprio conceito. São escolas municipais.

O dia que Educação e Saúde for prioridade dentro do nosso País, não vai ter para ninguém. O Brasil vai ser o maior país do mundo, porque temos um povo do bem, temos gente querendo fazer o seu melhor. Agora, infelizmente, quem manda muitas vezes não aproveita a oportunidade de estar lá, não tem essa consciência de que foi colocado lá para representar toda uma comunidade, todo um País. E, infelizmente, toma atitudes que não são compatíveis com um grande gestor. Por isso vemos essas mazelas. 

Há países aplicando a vacina em adolescentes de 12 anos. A senhora é favorável que a vacinação seja dada em crianças e adolescentes? 

Natasha Slhessarenko – Sempre favorável. A vacina mudou a história das doenças infeccionas no planeta. Antes, se morria de doenças infeccionas e parasitárias. Hoje, se morre de doenças no coração e de câncer. Então, houve uma mudança no perfil das mortes. E isso se deve a alguns fatores e, sem dúvida, a vacina é o primeiro deles. Por que se morre muito menos de pneumonia, de diarreia, de meningite, de tétano, de coqueluche, de rubéola, de caxumba, de febre amarela? Porque tem vacina. Então, sempre vou ser uma defensora ferrenha de vacinas. Elas mudaram a realidade mundial. 

Fonte: REDAÇÃO MÍDIA NEWS

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