Um estudo inédito identificou a presença do fungicida carbendazim no rio Santo Antônio, afluente importante para a bacia do pantanal, em Mato Grosso do Sul. O levantamento foi apresentado por uma pesquisa da Organização Não Governamental (ONG) SOS Pantanal.
O carbendazim é um agrotóxico que tem uso proibido no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2022. O produto químico tem potencial cancerígeno e de risco à reprodução humana, conforme especialistas.
Divulgado com exclusividade pelo g1, o levantamento foi realizado ao longo de cinco meses, de outubro de 2023 a março deste ano, em três pontos específicos do rio Santo Antônio, em Guia Lopes da Laguna. Publicado nesta sexta-feira (22), Dia Internacional da Água, a pesquisa tem como objetivo alertar para a má conservação do solo e para utilização de agrotóxicos proibidos.
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Três preocupantes componentes químicos e bactérias foram encontrados nos pontos de coleta do rio Santo Antônio pelas equipes da SOS Pantanal. Veja abaixo:
- Carbendazim: fungicida é proibido de ser vendido no Brasil desde 2022, de acordo com a Anvisa. O agrotóxico é considerado de alto risco à vida humana, biodiversidade e com potencial cancerígeno.
- Coliformes fecais: são bactérias, que identificadas em grande quantidade, podem afetar drasticamente a biodiversidade e saúde das pessoas;
- Metolacloro: a exposição repetida deste elemento químico pode provocar sensibilização da pele e é considerado extremamente tóxico.
Além do Carbendazim, coliformes fecais e Metolacloro, as análises clínicas identificaram a presença de Nitrato e Fosfato (se ingeridos em excesso, podem causar problemas à saúde humana), presentes em agrotóxicos utilizados em plantações, nas águas do afluente pantaneiro.
Ao longo dos levantamentos, 109 parâmetros foram analisados para oferecer uma conclusão mais precisa dos elementos identificados, como explica o pesquisador da SOS Pantanal, Gustavo Figueirôa. Foram realizadas 10 coletas nos três pontos específicos do rio.
Para chegar às conclusões, os pesquisadores da ONG levaram em consideração as dinâmicas de plantações de soja próximas ao afluente, a quantidade de chuva antes dos dias de coleta, as condições climáticas gerais e locais de fácil acesso.
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O levantamento foi realizado ao longo de cinco meses, de outubro de 2023 a março deste ano, em três pontos específicos do rio Santo Antônio. — Foto: g1
A presença dos agrotóxicos foi apenas um dos itens alarmantes identificados pela pesquisa, como Figueirôa explica. Foi constatada também a falta de Áreas de Proteção Permanente (APP) no entorno das plantações de soja nos três pontos de coleta.
O pesquisador afirmou que as propriedades fazem mau uso do solo, o que intensifica a chegada dos agrotóxicos no rio.
Figueirôa explica que pela legislação, o rio Santo Antônio deveria ter uma faixa marginal de 50 metros de largura mínima a borda da calha do leito regular de APP. Entretanto, este não foi o cenário encontrado pelos pesquisadores.
“É de extrema importância para a manutenção da qualidade da água dos rios, as matas ciliares servem como um filtro de materiais que fluem em direção à margem dos rios, tais como sedimentos, resíduos, agrotóxicos, dentre outros”, apresenta parte do levantamento inédito.
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Pesquisadores durante coleta de amostras, no rio Santo Antônio. — Foto: Gustavo Figueirôa-SOS Pantanal/Reprodução
Com plantações cada vez mais próximas ao rio, um regime de chuva difuso e um solo cada vez mais exposto, a chegada dos agrotóxicos aos rios foi quase inevitável, como Figueirôa pondera.
“A hora que a chuva cai, a água vai levando esse solo, um solo exposto. Leva este solo contaminado com agrotóxicos para a produção, para os rios. Com a falta de mata ciliar, não tem essa filtragem, então tudo desce direto para o rio e dentro do rio você causa o assoreamento”.
Três pontos de atenção foram apresentados pelo estudo da SOS Pantanal:
- Mau uso do solo;
- Ausência de APP, que seriam os filtros naturais antes dos rios;
- Degradação geral do ecossistema.
“Tudo isso, somado pela degradação geral que a gente tem visto no Cerrado e no entorno do Pantanal, causa impactos. Menos chuva e mais área degradada, começa a conectar tudo. Sem chuva na Amazônia, não tem Pantanal cheio, não tem rio cheio, tem rio assoreado”, contextualiza Figueirôa.
Água, solo e ar: elementos interligados
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Com um solo mais exposto, o monitoramento do rio Santo Antônio se deu pela importância do afluente para o abastecimento da cidade de Guia Lopes da Laguna, que tem quase 10 mil habitantes.
“A partir dos resultados, queremos entender o risco de contaminação da água utilizada pela população da cidade. Outro fator importante para o monitoramento do rio Santo Antônio foram estudos identificando déficit de Área de Preservação Permanente (APP) considerando o que preconiza o Código Florestal. A proteção da vegetação ciliar APP é importante para a manutenção da qualidade da água dos rios”, pondera o estudo.
A professora do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (Inbio-UFMS) Alexandra Pinho vê com preocupação a presença dos fungicidas no rio Santo Antônio e a falta de APP ao entorno do afluente. A especialista em recuperação de áreas degradadas e transporte de poluentes, explica que a preocupação não deve ser isolada apenas aos humanos, mas à toda a biodiversidade.
“Uma coisa importante que a gente tem que observar é que não é só para o ser humano. O rio está cheio de seres vivos, inclusive seres vivos que a gente se alimenta. A água que a gente bebe vem do rio. Grande parte do agrotóxico usado na agricultura vai se dispersar no ambiente, uma pequena parcela usada que realmente vai cair na planta. Uma parte, dependendo de como for aplicado, se for aéreo, por exemplo, fica na atmosfera”, como Pinho apresenta.
A pesquisadora da UFMS explica a dinâmica dos agrotóxicos. Segundo Pinho, a dispersão dos ativos químicos está interligada entre ar, terra e água. A identificação do carbendazim no rio Santo Antônio também indica a presença do agrotóxico em nuvens e no solo, como a especialista detalha.




















