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CÍCERO RAMOS

Qual o momento de parar?

Existe um momento em que necessidade e ambição deixam de ser a mesma coisa

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Há livros que impressionam pela complexidade. Outros permanecem porque acertam uma verdade humana difícil de ignorar. “De Quanta Terra um Homem Precisa?”, de Liev Tolstói, pertence ao segundo grupo.

A caminhada de Pahóm passa a representar a lógica humana de sempre querer ir além

O conto acompanha Pahóm, um camponês que leva uma vida simples e relativamente estável. O problema começa quando ele passa a acreditar que lhe falta apenas uma coisa para viver em paz: mais terra.

A princípio, parece um desejo legítimo. Mais espaço. Mais produção. Mais segurança. Mas Tolstói percebe algo que continua atual: existe um momento em que necessidade e ambição deixam de ser a mesma coisa — e quase ninguém percebe quando cruza essa linha.

Pahóm compra pequenas propriedades. Depois quer mais. Muda de região atrás de terras mais férteis. Continua crescendo, mas nunca se satisfaz. Sempre existe um novo pedaço, uma nova oportunidade, um novo ganho.

Até que encontra um povo que lhe faz uma proposta incomum: toda a terra que conseguir percorrer a pé em um único dia será sua, desde que consiga retornar ao ponto de partida antes do pôr do sol.

É aí que Tolstói revela a verdadeira dimensão do conto. A terra deixa de ser terra.

A caminhada de Pahóm passa a representar a lógica humana de sempre querer ir além. No começo, ele calcula. Planeja. Controla. Mas, conforme avança, começa a repetir a justificativa mais perigosa da vida:

“Só mais um pouco.”

Mais um trecho.

Mais uma conquista.

Mais uma oportunidade boa demais para abandonar.

No meio do caminho, ele percebe que já foi longe demais. Entende que deveria retornar. Mas continua avançando. E essa talvez seja a maior percepção de Tolstói: a ruína raramente nasce em grandes erros. Ela costuma nascer em pequenas decisões aparentemente razoáveis.

Quando finalmente decide retornar, já é tarde. Pahóm corre desesperadamente contra o tempo para alcançar o ponto de partida antes do pôr do sol. Consegue chegar. Mas cai morto no instante final.

No fim, toda a terra de que realmente precisava era o espaço da própria sepultura.

O impacto desse conto permanece atual porque ele nunca tratou apenas de propriedade rural. A terra funciona como metáfora para quase tudo que organiza a vida contemporânea: dinheiro, poder, status, produtividade, reconhecimento, vaidade e até propósito.

Vivemos em uma cultura que ensina continuamente a avançar, produzir, conquistar e acelerar. Quase nunca somos ensinados a perceber o momento de voltar.

Talvez a pergunta central de Tolstói continue mais atual do que nunca: qual é o momento de parar? O conto não condena o trabalho, o progresso ou a prosperidade. O que ele denuncia é algo mais sutil e perigoso: a ilusão de que sempre dá tempo para só mais um pouco.

 

Cícero Ramos é  engenheiro florestal e consultor autônomo

*Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do Isso É Notícia*

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