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GIOVANE DE ALBUQUERQUE

De desabafo a ataque pessoal

Conversa no grupo do condomínio pode dar problema?
GIOVANE DE ALBUQUERQUE

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Os grupos de WhatsApp viraram parte da rotina de muitos condomínios. Eles ajudam a avisar sobre obras, reuniões, segurança e assuntos do dia a dia, mas também podem se transformar em um espaço de discussão, ofensas e acusações entre moradores.

O problema é que, quando a conversa passa do tom de reclamação ou desabafo e vira ataque pessoal, o que foi dito no grupo pode sim gerar consequências na Justiça.

É importante lembrar que não existe uma espécie de “terra sem lei” só porque a mensagem foi enviada pelo WhatsApp. Quando alguém ofende, acusa falsamente ou expõe outra pessoa de forma humilhante, pode haver enquadramento nos chamados crimes contra a honra, como injúria, difamação e calúnia.

Em linhas gerais, a injúria acontece quando há xingamento ou ofensa direta à dignidade da pessoa; a difamação, quando se espalha um fato que prejudica a reputação de alguém; e a calúnia, quando se acusa falsamente outra pessoa de ter cometido um crime.

Na prática, isso significa que frases ditas no calor da discussão — como acusações de roubo, desonestidade, incompetência ou xingamentos direcionados a síndicos, moradores, funcionários ou prestadores de serviço — podem ir muito além de uma simples briga de condomínio.

Aqui entra um ponto importante, o Código Penal prevê que as penas dos crimes contra a honra aumentam de um terço quando o fato é cometido na presença de várias pessoas ou por meio que facilite a divulgação da ofensa. Isso pode alcançar situações como grupos de WhatsApp e outras redes sociais, a depender do caso concreto. Ou seja: a internet não “anula” a lei. Pelo contrário, em muitos casos ela pode até agravar a situação, porque a mensagem se espalha mais rápido e alcança mais pessoas.

Além da esfera penal, também pode haver pedido de indenização por danos morais, principalmente quando a ofensa é compartilhada para várias pessoas e ganha grande repercussão dentro do prédio. E, quando a mensagem circula por meios que facilitam a divulgação, a situação costuma ser analisada com ainda mais rigor.

Outro ponto importante é a prova. Prints de conversa podem ser usados para demonstrar o que foi dito no grupo, mas, em casos mais sérios, o ideal é guardar o material com cuidado e, se possível, fazer uma ata notarial em cartório, que dá mais segurança à prova porque registra oficialmente o conteúdo apresentado.

Os serviços notariais existem justamente para garantir publicidade, autenticidade, segurança e eficácia aos atos jurídicos, o que explica por que a ata notarial costuma ser tão útil em discussões envolvendo mensagens de WhatsApp.

Também é bom deixar claro que o síndico não responde automaticamente por tudo o que os moradores escrevem no grupo. Em regra, quem responde pela mensagem ofensiva é quem a publicou. Ainda assim, a administração do condomínio pode adotar regras simples para evitar que o grupo vire um espaço de ataques pessoais, como restringir o uso a assuntos do condomínio, orientar os participantes e incentivar que reclamações mais delicadas sejam tratadas por canais formais.

No fim das contas, o grupo de WhatsApp pode ser muito útil para a convivência, mas precisa ser usado com responsabilidade, porque uma mensagem enviada no impulso pode virar prova, processo e dor de cabeça para todos os envolvidos.

 

Giovane de Albuquerque Figueiredo é pós-graduado em Direito e Processo Penal pela Escola Brasileira de Direito – EBRADI.

*Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do Isso É Notícia*

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