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“PASSIVO MENTAL AUMETA”

“Para o Estado somos apenas números”, diz presidente do Sinpol sobre adoecimento policial

Sinpol aponta crise silenciosa de saúde mental na Polícia
“Para o Estado somos apenas números”, diz presidente do Sinpol sobre adoecimento policial - Gerada por IA

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O presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Mato Grosso (Sinpol-MT), Gláucio de Abreu Castañon, afirmou em entrevista ao VGN que a saúde mental dos policiais civis vive uma crise silenciosa dentro das corporações e criticou duramente a falta de políticas públicas permanentes voltadas ao acompanhamento psicológico dos profissionais da Segurança Pública.

Segundo Gláucio, o cenário dentro da Polícia Civil é “preocupante” e o adoecimento emocional dos servidores já se tornou algo visível nas delegacias e unidades policiais, embora continue sendo ignorado institucionalmente. “Em se tratando de policiais civis, o desgaste mental é visível, porém ignorado, considerando a falta de políticas preventivas efetivas”, afirmou.

O sindicalista avalia que os casos que eventualmente chegam ao conhecimento público representam apenas uma pequena parcela da realidade enfrentada diariamente pelos policiais. Conforme ele, existe uma enorme subnotificação, causada principalmente pelo medo de punições, estigmas e prejuízos financeiros.

“Existe uma cifra oculta gigante. São diversos os fatores que levam ao adoecimento, dentre eles desgaste físico e mental natural da atividade policial, carga excessiva de trabalho, assédio moral, danos financeiros advindos da busca por tratamento e desvalorização profissional”, declarou.

Durante a entrevista, Gláucio também fez críticas à política interna relacionada às licenças médicas dentro da Polícia Civil. Segundo ele, muitos servidores evitam apresentar atestados médicos por receio de sofrer descontos salariais ou perder benefícios financeiros, agravando ainda mais o quadro psicológico da categoria.

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“Policiais civis, assim como a maioria dos servidores públicos, estão endividados via consignados em folha e, para piorar, não podem adoecer, pois, se o fizerem, são punidos financeiramente”, disse.

Ele afirmou ainda que uma minuta de decreto teria criado penalizações para policiais que apresentem atestados superiores a quatro dias, situação que, segundo o presidente do sindicato, empurra servidores adoecidos para o silêncio.

“Como os policiais endividados não podem se dar ao luxo de perder valores, não apresentam atestados. Aí vem um ‘expert de nada’ e afirma que acabaram com os atestados médicos na Polícia Civil, mas o passivo mental aumenta e, uma hora, a conta chega”, criticou.

Ao ser questionado sobre os fatores que mais têm contribuído para o adoecimento psicológico dos policiais, Gláucio afirmou que o problema não se resume apenas à rotina violenta da profissão, mas envolve um conjunto de pressões internas e cobranças institucionais. “É um combo”, resumiu.

Segundo ele, a cobrança por produtividade e metas vem aumentando o nível de estresse e sobrecarga entre os servidores, principalmente após a implantação do chamado “prêmio por produtividade e eficiência”.

“Essa política desastrosa de criação do prêmio por produtividade e eficiência, que de eficiência não premia nada, tem levado os policiais a cargas de trabalho excessivas e, com a cobrança, vêm o assédio e o abuso de autoridade, levando inevitavelmente ao adoecimento dos policiais”, afirmou.

Gláucio também relatou que muitos policiais continuam trabalhando mesmo necessitando de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Conforme ele, boa parte dos tratamentos ocorre de maneira particular e sem comunicação oficial aos órgãos de segurança.

“O número de policiais com licença médica para tratamento é insignificante quando comparado à quantidade de policiais que fazem tratamento particular, mas não reportam aos órgãos de segurança, e aos que não fazem nenhum tratamento, mas necessitam fazer”, pontuou.

Apesar de reconhecer que o Estado oferece algum suporte psicológico, o presidente do Sinpol-MT afirmou que as medidas atuais não são suficientes para enfrentar o problema de maneira efetiva.

“O Estado possui suporte. No entanto, é necessário mudar rotinas, tratamentos e procedimentos institucionais para prevenir o adoecimento e, caso o adoecimento ocorra, que adotem políticas que não amedrontem ainda mais a pessoa adoentada psicologicamente”, destacou.

Questionado sobre a existência de protocolos internos para identificar policiais em situação de esgotamento emocional ou risco psicológico, Gláucio foi direto ao afirmar que, se esses mecanismos existem, não funcionam adequadamente. “Se existe, não é aplicado efetiva e eficazmente”, disparou.

O presidente do sindicato também lamentou que, historicamente, casos graves envolvendo policiais acabem sendo esquecidos após a repercussão inicial. “Infelizmente a história tem mostrado que não muda nada. Apenas a família irá sofrer as consequências. Para o Estado, somos apenas números, peças de fácil reposição”, afirmou.

Na avaliação dele, o primeiro passo para evitar novos casos seria o reconhecimento, por parte do próprio Estado, de que houve falhas no acompanhamento dos profissionais da Segurança Pública. “O primeiro passo é o Estado reconhecer que falhou no acompanhamento e no tratamento dispensado aos servidores da Segurança Pública”, disse.

Além disso, Gláucio defende maior participação dos sindicatos e associações representativas na construção de políticas de prevenção e acolhimento. “É importante ouvirem os sindicatos e associações representativas das categorias, pois ambos detêm vasto conhecimento sobre as causas e podem ajudar na busca de soluções”, ressaltou.

Ele ainda cobrou respeito à carga horária legal dos policiais, combate ao assédio moral e valorização dos servidores que atuam na linha de frente. “É preciso cumprir a lei no sentido de respeitar a carga horária, coibir excessos como assédios e abusos de autoridade e valorizar a categoria como um todo, e não apenas os ocupantes de cargos ou postos de chefia”, declarou.

Ao final da entrevista, o presidente do Sinpol-MT criticou ações institucionais pontuais voltadas à saúde mental, classificando campanhas e palestras isoladas como insuficientes diante da gravidade do problema.

“Já está provado que apenas as velhas campanhas midiáticas, com publicação em sites institucionais e uma ‘palestrazinha’ anual na Capital, não resolvem, se não vierem acompanhadas de mudança de postura institucional, valorização e respeito do trabalhador, punição a quem persegue e assedia, apoio médico e psicológico e motivação ao tratamento sem punição financeira como ocorre hoje”, concluiu.

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