Longe dos palcos desde que foi um dos protagonistas do musical “Priscila, a Rainha do Deserto”, Reynaldo Gianecchini está em cartaz com o drama “Um Dia Muito Especial”, baseado no filme italiano homônimo estrelado por Sophia Loren e Marcello Mastroianni.
No espetáculo, que se passa na Itália no fim dos anos 1930, quando o regime fascista governava, Gianecchini dá vida a Gabriele, um homem que acabou de ser demitido da rádio onde trabalha por ser homossexual. Ele encontra apoio na vizinha, Antonietta (Maria Casadevall), dona de casa e mãe de seis filhos, que vive um casamento infeliz.
A coluna conversou com o ator sobre o novo trabalho.
O que te fez querer fazer “Um Dia Muito Especial”?
Eu sou apaixonado pelo cinema italiano, principalmente por esse filme. Eu estava, inclusive, na Itália quando recebi o convite. Acho um desafio gigante tirar algo do cinema e trazer para os palcos, até para atualizar. É instigante fazer um “filme no palco”.
Essa história é muito pertinente atualmente. Fala do encontro de um homem e uma mulher na época do fascismo na Itália, mas é sobre um encontro que transforma a vida deles, porque eles exercitam a escuta e o acolhimento. Eles são opostos, mas se ouvem. Precisamos falar sobre polarizações. Quando colocamos um olhar humano sobre o outro, a gente se transforma.
Seu personagem, Gabriele, é perseguido por sua sexualidade no contexto de Roma em 1938. De alguma forma, você também passou por julgamentos. Como é tocar nesse assunto no teatro?
É algo sobre o qual já venho falando há um tempo: a liberdade de ser. Chamamos a atenção para causas que sempre ficaram marginalizadas. É importante ser antirracista, brigar contra o machismo e ser aliado contra a homofobia e a LGBTfobia.
Tenho incorporado esses temas no meu trabalho. A sexualidade ainda dá “pano para a manga” e todos precisam rever e entender muita coisa. Acho que a militância forçada não resulta tanto quanto a arte, que mostra o lado humano. Quando fiz Priscilla, muita gente estranhou o “galã” fazendo uma drag queen, mas, quando você vê aquele ser humano no palco, você desmonta o preconceito.
A arte é sobre desmontar o impensável e estabelecer diálogos.
Na peça, o personagem sofre por conta da sexualidade. Como era para você falar sobre esse tema no começo dos anos 2000 em comparação a hoje?
Hoje ficou tudo muito mais fácil. Há pouco tempo era realmente muito difícil falar sobre isso de forma livre por causa do preconceito. Ainda existe, mas demos bons passos. Hoje, talvez as pessoas não percam mais os empregos por causa da sexualidade.
Vivemos um momento de polarização em que se espera o posicionamento de figuras públicas. Como você lida com essa expectativa?
Hoje tudo virou debate político de direita ou esquerda, e eu procuro evitar um pouco isso no sentido de exercitar a escuta. Certas coisas perderam o contexto. Quando falamos de fascismo ou democracia, não estamos falando de partido, mas de conceitos grandes.
A democracia é um bem; o fascismo é um movimento que deu errado na história. Ao não admitir falas fascistas, falamos do fascismo em si, não de partidos. Os conceitos estão se banalizando em nome de uma luta que não acaba nunca.
Além desses temas que a peça trata, o que mais você gostaria de debater publicamente?
Interessa-me muito o papel da mulher. A peça fala sobre como a mulher foi massacrada durante muito tempo e a importância de acabar com o sistema machista. Também gosto de falar sobre a liberdade de ser quem você é, sem se encaixar em padrões ou apenas agradar aos outros. Observar a própria essência e brilhar com uma expressão autêntica. Meus trabalhos são permeados por isso.
Você ficou anos fazendo novelas de sucesso e agora parece estar mais afastado da TV. Foi um afastamento pensado? Há planos de voltar?
Eu adoro o audiovisual e sempre fiz TV, teatro e cinema ao mesmo tempo. Eu só quis dar um tempo de novela porque, como fiz muito, tive vontade de fazer outras coisas com tempos de produção mais curtos. Novela demora um ano. Quero me experimentar em novas coisas, então hoje dou prioridade para filmes, séries e teatro. Não penso em fazer novela no momento, mas nunca digo nunca.
A peça mostra o encontro de dois desconhecidos que transforma suas vidas. Você já teve um encontro de alma assim na vida real?
Tive isso com a Marília Gabriela, minha ex-mulher. Quando a conheci e ela abriu a porta, tive a sensação de que a reconhecia. Não foi calculado. Eu não me preocupo com relacionamentos. Acho que eles acontecem quando o universo junta pessoas afins. Acho lindos os encontros, apesar de estar há muito tempo sem me relacionar.























