A segurança pública, considerada uma das principais vitrines das gestões de Mauro Mendes (União) e do atual governador Otaviano Pivetta (Republicanos), voltou ao centro das críticas em Mato Grosso após uma sequência de episódios envolvendo o sistema socioeducativo e os índices de feminicídio no estado.
Nos últimos dois meses, duas adolescentes internadas no Complexo Pomeri, em Cuiabá, morreram por suicídio enquanto estavam sob custódia do Estado. Os casos levantaram questionamentos sobre as condições da unidade e a assistência psicológica oferecida às menores apreendidas.
As duas mortes ocorreram em circunstâncias semelhantes. A primeira foi registrada no dia 16 de março, um dia após a adolescente completar 15 anos. A segunda ocorreu em 16 de maio e envolveu uma jovem de 17 anos. Ambas estavam internadas em unidades ligadas ao sistema socioeducativo estadual.
As ocorrências reacenderam o debate sobre a situação estrutural e emocional enfrentada por adolescentes privados de liberdade no estado. Pela legislação, jovens internados devem receber acompanhamento psicológico e psiquiátrico sempre que necessário, justamente para prevenir situações de automutilação e suicídio.
Após o segundo caso, a Secretaria de Estado de Justiça informou que acionou a Polícia Civil e a Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) para apuração das circunstâncias da morte e afirmou prestar assistência às famílias das adolescentes.
Dias antes da segunda morte, o desembargador Orlando Perri, supervisor do Grupo de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário e Socioeducativo (GMF-MT), já havia feito alertas públicos sobre a situação do Complexo Pomeri. Durante visita à unidade, o magistrado afirmou que o sistema enfrenta sérios problemas relacionados à saúde mental dos adolescentes internados.
NOTÍCIAS QUENTES – Acesse o grupo do Isso É Notícia no WhatsApp e tenha notícias em tempo real (CLIQUE AQUI)
Segundo Perri, casos de automutilação e tentativas de suicídio têm sido recorrentes, exigindo ações mais efetivas do poder público. O desembargador também criticou medidas consideradas paliativas e cobrou investimentos mais robustos em acompanhamento psicológico e psiquiátrico nas unidades socioeducativas.
A discussão ocorre justamente no momento em que Cuiabá sedia encontros voltados à defesa dos direitos da infância e adolescência. O Ministério Público de Mato Grosso, em parceria com o Judiciário e instituições de ensino, promove o 1º Encontro dos Direitos e Garantias Fundamentais de Crianças e Adolescentes e o 5º Encontro Estadual de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente.
Entre os temas debatidos estão políticas públicas de recuperação de adolescentes em conflito com a lei, prevenção da violência e fortalecimento da rede de proteção social.
Além das críticas ao sistema socioeducativo, o governo estadual também enfrenta pressão crescente em razão dos índices de feminicídio em Mato Grosso. O estado lidera pelo terceiro ano consecutivo o ranking proporcional de assassinatos de mulheres no país.
O tema se tornou um dos pontos mais sensíveis da política de segurança pública estadual. Embora o governo destaque índices de resolução dos casos, críticos apontam que o principal desafio está justamente na prevenção dos crimes, já que a maioria dos feminicídios é praticada por companheiros ou ex-companheiros das vítimas, muitas vezes mesmo após medidas protetivas determinadas pela Justiça.
Dados citados no documento apontam que Mato Grosso registrou 52 casos de feminicídio em 2025, segundo o Observatório Caliandra, do Ministério Público Estadual. O número se aproxima dos 60 casos contabilizados na cidade de São Paulo, que possui população muito superior à mato-grossense.
Com cerca de 11,5 milhões de habitantes, São Paulo registrou apenas oito casos a mais que Mato Grosso, estado com menos de 4 milhões de moradores. O comparativo reforça a preocupação em torno da violência contra mulheres em território mato-grossense.
Outro ponto levantado no debate é a política “Tolerância Zero” contra o crime organizado, defendida pela atual gestão estadual. Ainda em 2024, Orlando Perri já havia demonstrado preocupação com a efetividade das ações dentro do sistema prisional e socioeducativo.
Na época, o desembargador afirmou que operações recorrentes para apreensão de celulares em unidades prisionais revelavam falhas estruturais na fiscalização e no controle interno. Segundo ele, apreensões feitas em uma semana eram repetidas poucos dias depois, demonstrando ausência de medidas permanentes.
Com o avanço da pré-campanha eleitoral em Mato Grosso, especialistas e lideranças políticas avaliam que os temas ligados à segurança pública, ao sistema socioeducativo e ao feminicídio devem ocupar espaço central nos debates eleitorais deste ano.
O crescimento das críticas ocorre justamente em uma área considerada estratégica para a imagem política do atual grupo governista, que tenta manter o discurso de eficiência administrativa e continuidade da gestão iniciada por Mauro Mendes.















