Uma crise de saúde mental provocou ao menos 18 tentativas de suicídio e uma morte desde junho de 2024 no Centro de Atendimento Socioeducativo Feminino de Cuiabá, que conta com 25 adolescentes internadas.
Uma adolescente foi achada morta no dia 16 de março no centro socieducativo. A jovem foi encontrada sem sinais vitais na própria cama, após uma sequência de tentativas impedidas, mas que não foram divulgadas oficialmente pelo governo estadual.
Documentos obtidos pela reportagem mostram outras 18 tentativas de suicídio desde junho de 2024. Agentes, porém, informaram ao UOL que foram cerca de 30 ocorrências desde 2023.
É uma situação que ninguém suporta mais: falta água na unidade, não tem equipe com psicólogos suficiente para atender as adolescentes em crise, faltam agentes para a quantidade de jovens internadas e nada tem sido feito pelo governo para resolver – Agente que atua na unidade, mas preferiu não ser identificado
O governo de Mato Grosso diz que todos os casos foram registrados. De acordo com a Secretaria de Justiça, todos “foram formalmente comunicados por meio de Boletim de Ocorrência à Polícia Civil” e “os fatos também estão sendo apurados na esfera administrativa”.
Para evitar novos casos, agentes retiraram pertences que poderiam ser utilizados como meio para autoextermínio. A juíza responsável pelo caso avalia que a medida acaba funcionando como uma “punição” pelo sofrimento psicológico das adolescentes internadas.
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Para evitar novos casos, agentes recolhem pertences que poderiam ser utilizados como meio para autoextermínio. A juíza responsável pelo caso avalia que a medida acaba sendo uma “punição” e não prevenção, pelo sofrimento psicológico das adolescentes internadas.
Uma interna recebeu liberdade assistida após o quinto episódio de tentativa de suicídio no último sábado. A Justiça atendeu ao pedido do Ministério Público e da Defensoria Pública e apontou falhas estruturais no local.
Uma interna recebeu liberdade assistida no sábado passado, após pedido do Ministério Público. A jovem havia atentado contra a própria vida cinco vezes. A Justiça atendeu ao pedido do MP e da Defensoria Pública e apontou falhas estruturais no local. Assim, ela passa a cumprir as medidas socioeducativas de modo aberto, sob os olhares de um supervisor.
Magistrada criticou a falta de suporte clínico na unidade e afirmou que a estrutura se parece com a de uma “prisão comum”. “A unidade socioeducativa não dispõe de estrutura ou recursos humanos para atender adolescentes em risco de suicídio”, diz a decisão da juiza Leilamar Aparecida Rodrigues.
Governo estadual passou a proibir entrevistas de servidores à imprensa após aumento de casos. Uma portaria publicada em agosto do ano passado, ainda na gestão do governador Mauro Mendes (União Brasil), proibiu a divulgação de imagens e o contato com jornalistas sem autorização prévia da chefia. Mendes deixou o governo em março para estar apto a concorrer a outro cargo nas eleições deste ano. Seu vice, Otaviano Pivetta (Republicanos), assumiu o governo.
Estrutura improvisada e terapias não recomendadas
As 25 adolescentes internadas no centro dividem um espaço adaptado e com falta de água e médicos. De acordo com documentos do Ministério Público, o local funciona no antigo prédio masculino, já que a obra da nova unidade feminina foi abandonada pela construtora.
A equipe técnica atual conta com apenas uma psicóloga e uma assistente social. Outras duas profissionais estão afastadas do trabalho por conta de exaustão mental.
O Estado teria aplicado sessões de constelação familiar, prática criticada por especialistas e não recomendada pelo Conselho Federal de Psicologia. Um ex-funcionário relatou sob anonimato ao UOL que o programa acabou interrompido porque as jovens choravam muito e tentavam suicídio logo após os encontros. Uma nota técnica do órgão aponta que a prática contraria o Estatuto da Criança e do Adolescente e possui viés conservador.
A gestão estadual prometeu transferir as adolescentes para um prédio adequado. Em nota, a pasta disse que finaliza uma nova unidade no complexo de Cuiabá e que realiza reformas no ambulatório de saúde.
Sindicato aponta censura e governo diz que todos casos foram registrados
O sindicato dos agentes avalia que as regras de comunicação censuram os trabalhadores. Paulo Issac Costa Corrêa, presidente do Sindpss-MT (Sindicato da Carreira dos Profissionais do Sistema Socioeducativo do Estado de Mato Grosso), diz que a falta de profissionais afeta psicologicamente as servidoras da unidade.

O representante sindical relatou ameaças de demissão contra quem reclama da estrutura. “Um servidor que denunciou a falta de água seria demitido se não fosse a intervenção do sindicato”, afirmou Corrêa.
Sem detalhar, o governo estadual declarou que possui um protocolo de prevenção desde 2024. Além disso, a Secretaria de Justiça informou que apura os fatos administrativamente.
Procure ajuda
Se você estiver tendo pensamentos suicidas, procure ajuda especializada.
O CVV (Centro de Valorização da Vida) oferece apoio emocional e prevenção ao suicídio gratuitamente, 24 horas por dia, pelo telefone 188. Também há atendimento por chat, e-mail e presencialmente.
Outra opção é procurar um Caps (Centro de Atenção Psicossocial) na sua cidade.
Há ainda o Pode Falar, canal criado pelo Unicef para jovens de 13 a 24 anos, com atendimento anônimo e gratuito.




















