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LUIZ HENRIQUE LIMA

A coragem de acolher

Cada criança que não é adotada representa um fracasso civilizatório
LUIZ HENRIQUE LIMA

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25 de maio, o Dia Nacional da Adoção, é mais do que uma data no calendário: é um chamado à nossa consciência e ao nosso sentimento de fraternidade. Um convite para que o Brasil olhe para suas crianças e adolescentes acolhidos em abrigos e neles reconheça vidas que esperam por amor, pertencimento e futuro.

Em maio de 2026, temos 36.376 meninos e meninas vivendo em instituições de acolhimento, sendo 6.220 à espera de adoção. Cada uma delas traz uma história de abandono, violência ou negligência, mas também carrega um potencial infinito de afeto e esperança. Do outro lado, há milhares de famílias habilitadas e dispostas a adotar. Entre ambos, persiste um abismo que impede o encontro entre quem precisa de um lar e quem deseja oferecê-lo.

Esse abismo é o que uma vez denominei muro invisível da adoção. Ele não está nas leis, que têm avançado, nem nas instituições, que se esforçam para agir com humanidade e celeridade. Está nas mentalidades e preconceitos arraigados. Está nas conversas que desaconselham, nos olhares que julgam, nas frases que ferem. Está na resistência em aceitar que filhos são frutos do amor, não do DNA. Está na incompreensão de que famílias não se criam nem se mantêm por registros cartoriais, mas por afetos que sobrevivem aos inevitáveis solavancos da vida.

O processo de adoção no Brasil é cuidadoso e responsável. Pretendentes passam por avaliações psicológicas, cursos e entrevistas, precisando demonstrar preparo, equilíbrio e compromisso.

Já as crianças acolhidas são acompanhadas por equipes dedicadas, que, dentro das restrições orçamentárias, tentam garantir-lhes proteção e dignidade. Falta-lhes, porém, uma experiência humana essencial: o sentimento de pertencimento a uma família.

Infelizmente, o percurso ainda é lento, podendo demorar mais de cinco anos, ritmo bem distinto do que se observa em países como Colômbia, Portugal ou Reino Unido. Enquanto os adotantes esperam, as crianças perdem anos irreversíveis de sua infância e adolescência, fundamentais para a sua formação, privadas da convivência familiar. E quanto maior a idade, menor a probabilidade de adoção.

Cada criança que não é adotada representa um fracasso civilizatório. Significa que falhamos em garantir aos mais frágeis e inocentes um dos seus direitos mais básicos: o de viver em um lar e conviver em família (art. 227 da nossa Constituição Cidadã). Esse direito não é apenas jurídico; é humano, afetivo, existencial. Nenhum governo ou sociedade pode declarar missão cumprida enquanto houver pelo menos uma criança – abrigada ou abandonada – crescendo sem a presença e o amor de pais, irmãos ou avós.

O Dia Nacional da Adoção deve ser um marco de mobilização para derrubar os muros invisíveis e enfrentar os obstáculos visíveis: a estrutura insuficiente das Varas da Infância e Juventude e o subfinanciamento crônico dos abrigos e serviços de acolhimento municipais, cuja gestão compete ao Poder Executivo. É hora de multiplicar campanhas de esclarecimento, de valorizar as adoções tardias e interraciais e de mostrar que o amor não tem cor, idade ou origem.

Adotar é um ato de coragem. A coragem de acolher, de escolher amar, de transformar o destino de uma criança e, ao mesmo tempo, o próprio. É um gesto que desafia o egoísmo e reafirma a humanidade. É a crença de que o amor é capaz de superar quaisquer barreiras.

Que este Dia Nacional da Adoção inspire o Brasil a ser mais sensível, mais solidário e mais justo. Que mais crianças encontrem o seu lar. E que novas famílias descubram, na adoção, uma bela forma de dizer “sim” à vida.

Luiz Henrique Lima é professor e conselheiro independente certificado.

*Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do Isso É Notícia*

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