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RENATA APRÁ

A neurociência da amizade: o que os vínculos fazem por dentro

Vale reforçar: o que protege não é simplesmente “ter amigos”, mas é a “qualidade percebida do vínculo
Renata Aprá

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Alimentação, treinos na academia, sono. Esses são alguns dos cuidados que costumamos priorizar para dar conta de uma rotina acelerada. Mas que lugar reservamos para as amizades?

Amizades funcionam como fontes de proteção a saúde mental – a neurociência tem se dedicado a entender exatamente como elas atuam no funcionamento do cérebro.

Sabemos que interações sociais positivas – como ser acolhido, ouvido, reconhecido – ativam uma região no cérebro chamada “núcleo accumbens” e outras regiões do “estriado ventral”, as mesmas áreas envolvidas em outras recompensas biológicas como comida e sexo. Essa ativação reforça o comportamento: por isso, buscamos manter os vínculos com quem se torna, para nós, uma fonte de bem.

Quando o contato social de qualidade – conversas próximas, toque afetivo, risada compartilhada – o cérebro libera oxitocina, um hormônio que reduz a reação a estímulos de ameaça e favorece comportamentos de confiança. É por isso que a presença de alguém confiável nos faz sentir seguros: não é apenas percepção subjetiva, há um correlato biológico. Esse mesmo efeito de segurança está associado a uma resposta menor de cortisol, o hormônio do estresse, diante das situações estressoras – fenômeno que a literatura chama de “efeito tampão social”.

Ao nos relacionarmos com amigos, exercitamos também a chamada “rede de teoria da mente” – a capacidade inferir, ou seja, entender, deduzir o que o outro está pensando ou sentindo. Manter amizades ao longo da vida está associado à preservação funcional dessa rede, o que traz benefícios inclusive para o envelhecimento cognitivo.

O caminho inverso também é observado: a ausência de vínculos saudáveis está associada a um estado de alerta mais constante, à dificuldade de confiar e à sensaçãio de que dores e preocupações precisam ser enfrentadas sozinhas – o que pode gerar mal estar, desânimo e tensão persistente.

Vale reforçar: o que protege não é simplesmente “ter amigos”, mas é a “qualidade percebida do vínculo. Nem toda relação terá todas essas características – algumas serão colegas de trabalho, outras companhias ocasionais – e isso é esperado. O ponto central é que relações marcadas por segurança, reciprocidade e previsibilidade permitem que o cérebro funcione de forma mais favorável à saúde mental.

RENATA APRÁ é neuropsicóloga

 

*Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do Isso É Notícia*

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