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WILLIAMOM DA SILVA

Milagre eleitoral em Várzea Grande

Quem acompanha essa movimentação poderia imaginar que Várzea Grande acaba de ser descoberta no mapa de Mato Grosso
Williamon da silva Costa

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Existe um fenômeno curioso na política brasileira que desafia até as leis da física. Durante boa parte do mandato, o dinheiro parece escasso, os projetos caminham lentamente e as prioridades ficam adormecidas. Mas basta o calendário eleitoral se aproximar para acontecer um verdadeiro milagre: bilhões aparecem, obras florescem e promessas brotam em velocidade impressionante.

Várzea Grande tem testemunhado esse milagre nos últimos dias. O governador Otaviano Pivetta, anunciou um pacote de investimentos de R$ 355 milhões para Cuiabá e Várzea Grande. O principal destaque é a construção de um novo Hospital e Pronto-Socorro, orçado em R$ 270 milhões. O pacote também prevê R$ 46 milhões para a retomada das obras dos Colégios Estaduais Integrados (CEIs) dos bairros São Simão e Jercy Jacob, R$ 15,1 milhões para pavimentação e recapeamento de vias, R$ 8,5 milhões para a construção da nova sede da Politec e a autorização da construção da nova Feira Livre de Várzea Grande.

Quem acompanha essa movimentação poderia imaginar que Várzea Grande acaba de ser descoberta no mapa de Mato Grosso. Mas a realidade é outra. A cidade existe há mais de um século. Seus problemas também.

O Hospital e Pronto-Socorro não ficou pequeno da noite para o dia. A necessidade de novas escolas não surgiu na semana passada. As ruas não começaram a se deteriorar neste ano. Os feirantes tampouco passaram a reivindicar uma estrutura adequada apenas agora. A construção de uma nova feira livre, por exemplo, já havia sido anunciada durante a gestão do ex-prefeito Kallil Baracat. Diante disso, é inevitável a pergunta: por que tantas prioridades passaram a exigir urgência justamente neste momento?

Pode ser apenas uma coincidência. Daquelas coincidências que, curiosamente, costumam surgir a cada quatro anos.

Além disso, existe uma questão que também deixa dúvidas e merece uma reflexão. Será que a escolha da área destinada ao novo Hospital e Pronto-Socorro, ao lado do Aeroporto Internacional Marechal Rondon, atende aos critérios urbanísticos, ambientais e sanitários exigidos para um equipamento dessa complexidade? O intenso tráfego aéreo é compatível com um ambiente de recuperação de pacientes? O zoneamento urbano comporta essa atividade? E o reaproveitamento de uma estrutura abandonada representa, de fato, a melhor solução técnica ou apenas a alternativa mais conveniente?

Naturalmente, os responsáveis dirão que tudo faz parte do planejamento, que os recursos foram conquistados com muito trabalho, que os projetos amadureceram, que a burocracia retardou o processo e que agora chegou o momento de executá-los.

É uma explicação possível. Mas o cidadão também tem o direito de questionar quando o cronograma das obras parece acompanhar, com impressionante precisão, o calendário eleitoral. Não há qualquer problema em anunciar investimentos públicos. Pelo contrário. Eles são necessários e devem ser comemorados. O problema começa quando anúncios substituem entregas, cerimônias ocupam o lugar dos resultados e o marketing eleitoral passa a falar mais alto do que o planejamento de longo prazo.

Várzea Grande já assistiu a inúmeras solenidades, discursos e fotografias de autoridades exibindo projetos que jamais saíram do papel ou levaram anos para se concretizar. A população aprendeu, da forma mais dolorosa, que maquete não atende paciente, ordem de serviço não tapa buraco e coletiva de imprensa não reduz fila na saúde.

Hoje, o eleitor sabe que o verdadeiro corte da fita não acontece na assinatura de um convênio, mas quando a obra é concluída e colocada a serviço da população.

Enquanto isso não acontece, permanece uma velha pergunta: se havia R$ 270 milhões para um novo hospital, por que esse investimento não foi viabilizado antes? Se existiam recursos para infraestrutura, educação e segurança pública, por que a urgência surgiu justamente quando o debate eleitoral começa a ganhar força?

Essas perguntas ganham ainda mais relevância quando se observa o histórico político recente. Durante a campanha de 2022, Mauro Mendes afirmou que as obras do BRT poderiam ser concluídas em até dois anos e meio caso fosse reeleito. Recentemente, porém, declarou que nunca prometeu entregar o modal, mas apenas encontrar uma solução para o sistema de transporte. Independentemente da interpretação sobre essas declarações, o episódio ilustra uma realidade conhecida do eleitor: promessas precisam ser acompanhadas de resultados.

São perguntas que incomodam. Talvez exatamente por isso precisem ser feitas. Governos passam, mas as obras ficam. Ou, pelo menos, deveriam ficar. Promessas têm prazo de validade. Outdoors desbotam. Faixas de inauguração são retiradas. Discursos terminam. E Várzea Grande não pode mais ser reduto para “pescaria” de votos de candidatos de outras regiões, como se não tivesse identidade política e representantes locais competentes.

Mas a temporada de milagres não atrai apenas políticos. Ela também desperta o interesse de empresários e grupos econômicos que, durante anos, pareciam sequer saber onde ficava Várzea Grande. Enquanto a cidade enfrentava dificuldades na saúde, na infraestrutura, na mobilidade e na geração de empregos, o silêncio era absoluto. Não havia investimentos, manifestações públicas nem qualquer demonstração de compromisso com seu desenvolvimento.

Então chega o período eleitoral e, como num passe de mágica, Várzea Grande vira a “menina dos olhos”. Multiplicam-se as visitas, os elogios e os discursos sobre desenvolvimento. Descobre-se, de repente, um município que sempre existiu, mas que parecia invisível enquanto não representava interesse político ou econômico.

Aparecem comitivas, marqueteiros e promessas embaladas para consumo eleitoral. Circulam por eventos fechados, reuniões seletivas e encontros cuidadosamente organizados, onde se fala muito sobre o futuro da cidade, mas pouco sobre a ausência de compromisso demonstrada até aqui.

Não há problema em investir, empreender ou participar da vida pública. O problema é quando esse interesse desperta apenas na proximidade das eleições. A coincidência é grande demais para passar despercebida.

Várzea Grande não pode continuar sendo lembrada apenas quando o voto entra em cena. Seus mais de 300 mil habitantes merecem compromisso permanente, presença constante e respeito durante todo o mandato, e não apenas quando a cidade se transforma em palco de promessas e vitrine eleitoral.

Política não se faz apenas com votos!

Williamon da silva Costa é Acadêmico de direito

*Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do Isso É Notícia*

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