A cena que tá circulando é de uma coletiva de imprensa, meses atrás. O repórter Lázaro Thor, do PNB On-line, pergunta ao governador Mauro Mendes por que metade dos R$ 308 milhões do acordo com a Oi foi parar num fundo cujo principal cotista é o pai do secretário da Casa Civil. Pergunta de contabilidade: saiu daqui, chegou ali, por quê.
O governador responde com adjetivos. Quem afirma aquilo “mente descaradamente”. “Age de má-fé processual.” “Tenta enganar a população.” A denúncia é uma “farsa jurídica”, uma “verdadeira gincana”. No fecho, o resumo: “ou é uma absoluta incompetência de quem o fez ou uma absoluta má-fé”.
Ficou assim decidido. Fazer aquela pergunta exigia ser mentiroso, incompetente ou mal-intencionado.
Na última quinta-feira, a Polícia Federal fez a mesma pergunta. Agora com mandado, assinado pelo ministro Flavio Dino, do Supremo, e cumprido no endereço do ex-governador. A Operação Heritage investiga desvio de recursos e lavagem de dinheiro no acordo com a Oi, incluindo o trajeto do dinheiro até os fundos da família Garcia. É a mesma pergunta, agora com escolta.
Nos deparamos aqui com um problema de arquivamento. Em qual das três gavetas se classifica um ministro do Supremo? E a Polícia Federal, mente descaradamente ou é absolutamente incompetente? O ex-governador vai precisar escolher. Ou admitir que havia uma quarta opção e a omitiu. Talvez por um dos motivos listados por ele acima.
Naquela mesma coletiva, ele ainda explicou que dinheiro, depois que “vira privado”, não deve satisfação a ninguém. Sugeriu que o repórter, pela mesma régua, abrisse o próprio contracheque. A operação da Polícia Federal parte da premissa contrária. Quando a suspeita é que o acordo nasceu já com endereço de entrega, o caminho do dinheiro não é vida privada.
É o objeto do inquérito.
Mendes tem presunção de inocência e pode provar que o acordo foi legal e vantajoso, como sempre sustentou.
O que acabou foi a retórica anterior, aquela em que a pergunta ofendia e a resposta era um inventário das qualidades alheias.
PEDRO RODRIGUES é servidor público

























