Em setembro de 2012, publiquei o artigo Indústria da morte. Desde então, ao longo de 14 anos tenho publicado diversos outros artigos denunciando e combatendo a infame indústria tabagista. Alguns amigos leitores podem me considerar repetitivo ou sem inspiração, que volta frequentemente ao mesmo tema com os mesmos argumentos.
Não é isso. Falo da mesma tragédia porque a mesma tragédia continua matando impunemente centenas de milhares de brasileiros todos os anos, além de impor cruéis sofrimentos a milhões.
Volto ao mesmo assunto porque a indústria que lucra bilhões com essas mortes continua sendo não apenas tolerada como incentivada, sendo defendida por líderes empresariais e políticos e recebendo benefícios fiscais e de crédito de instituições públicas e privadas. Nesse período, chorei a perda de familiares, amigos queridos e colegas de trabalho — vítimas diretas dessa máquina de sofrimento.
Nos artigos que publiquei, apresentei estatísticas de saúde pública, econômicas e fiscais, exibi evidências científicas, refutei falácias e ofereci alternativas para o uso das áreas cultivadas e para a reconversão profissional dos trabalhadores e pequenos produtores.
Por vezes, confesso, senti-me solitário nessa jornada, como se estivesse pregando no deserto. É difícil enfrentar uma indústria controlada por corporações multinacionais que movimentam cerca de US$ 1 trilhão por ano e financiam uma sofisticada rede de “lavagem de imagem” e negacionismo científico, que inclui publicitários, ONGs e influenciadores digitais.
Por isso, recebi com alívio e entusiasmo o recente manifesto do historiador holandês Rutger Bregman. Para quem ainda não o conhece, aos 38 anos, Bregman é um dos mais proeminentes e combativos intelectuais de sua geração, autor de obras como Utopia para Realistas e Humanidade: uma História de Esperança.
Nos documentos da campanha pela Abolição da Indústria do Tabaco, disponíveis em www.moralambition.org, Bregman e seus colaboradores argumentam que a indústria tabagista produz “o artefato mais mortal da história”, responsável por uma devastação humana sem precedentes: o cigarro, que matou cem milhões de pessoas no século XX e, mantido o ritmo atual, ceifará um bilhão de vidas no século XXI. Apesar de sua letalidade — equivalente a cinquenta quedas diárias de aviões Jumbo — o setor continua altamente lucrativo, sustentado por estratégias que transformam cada morte em milhares de dólares de lucro.
A normalização dessa tragédia, somada ao crescimento do consumo em países de baixa renda e à expansão do vaping entre jovens, mantém o problema vivo e crescente.
O manifesto sustenta que o cigarro é um produto fraudulento, fruto de décadas de manipulação química e propaganda enganosa, com uma longa história de mentiras, lobby e ocultação científica.
A indústria viciou gerações inteiras, explorou menores, sabotou pesquisas, promoveu falsas “inovações” e perpetuou o mito da “livre escolha”, apesar de a nicotina criar dependência comparável à de drogas pesadas. Para que essa indústria mortal tenha um fim, Bregman defende três passos: recuperar a indignação pública, ampliar o engajamento de profissionais e ativistas, e assumir claramente o objetivo final — banir a fabricação e venda comercial de cigarros, abrindo exceção apenas ao cultivo tradicional e pessoal do tabaco, mas impedindo que corporações continuem a envenenar populações em escala industrial.
Tenho esperança de que esse debate sensibilize as lideranças políticas que os brasileiros irão escolher nas próximas eleições. Trata-se, literalmente, de uma causa de vida ou morte.
Luiz Henrique Lima é professor, escritor e conselheiro independente certificado.
*Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não representam necessariamente a opinião do Isso É Notícia*
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